29 outubro 2012

Luar


           Ela não se considerava uma pessoa descrente. Mas muitas pessoas lhe diriam que ela era.  Não é que ela não acreditava, ela só não esperava. Mas no fundo queria que a vida/destino ( se é que ele existisse) lhe surpreendesse.
Ela suspirou bem fundo, meneou a cabeça. Pensou que já estava ficando louca de tanto pensar. Mas  na verdade, percebeu,  que era aquele cenário que lhe induzia toda aquela avalanche de pensamentos. Como não refletir sobre a vida diante daquela visão? O mar calmo, a agua ainda quente do sol escaldante que havia estalado durante o dia todo. Ainda estava calor, apesar da brisa do mar adentrando o continente. Ao fundo a musica do lual atingia ele de forma leve e distante. Sim, ali seria um bom lugar para pensar. Sem preocupações, sem pressão ou pressa. O ar lhe entrava nos pulmões limpo e gelado.
                Pensou em muitas coisas, em mais do que ela poderia achar que pudesse passar em sua cabeça em uma só noite e em poucos minutos – assuntos tão diferentes... a infância, os livros que já havia lido, o primeiro namorado, o medo da velhice, a dor de perder o pai...  Medos e angustias na vida eram normais, disso ela já havia aprendido.  O difícil era por isso em pratica no dia-a-dia. Mas ali, ela conseguia refletir de uma forma clara. E não havia nada que pudesse a preocupar ou fazer sentir perder o chão dos pés como ocorria as vezes quando ela tinha que se virar sozinha. Batalhar por uma faculdade, disputar uma vaga de emprego... tudo isso era fases e as vezes, como muitos outros, ela se sentia perdida. Acreditava em seu potencial, no entanto reconhecia que era humana e que podia falhar. Será que ela realmente era boa em marketing, será que era criativa o suficiente para elaborar campanhas que atraíssem o publico e lhe desse sucesso profissional? Enfim... até agora o tempo estava lhe dando vitorias.
Essa é a vida, concluiu. Como é pra todo mundo. Não existe ninguém na face da terra isento de medos . Todos nós estamos sujeitos a pestanejar uma hora ou outra. Mas já havia decidido que não manteria os olhos fechados por muito tempo.
Ela morava apenas há 90 km da cidade mais próxima da praia, no entanto quase não ia ao litoral. Ali, naquele momento, decidiu que faria isso mais vezes, principalmente a noite. Horário mais propicio, mais bonito para a reflexão.
Ela sentiu um pequeno toque  em seu ombro. Virou a cabeça levemente na direção, apesar de não precisar,  pois sabia quem estava ali. Podia sentir o cheiro agridoce no ar do amor. E se não fosse pra sempre? Ela resolveu não se importar em pensar nisso...
- No que esta pensando? – perguntou ele. Ela encostou a cabeça no ombro dele.
- Em varias coisas. Nessa vida, e até no que possa existir depois dela.
- como assim?
- Aquilo que a gente deixa de herança sabe? Aquilo que fica dentro das pessoas, mesmo depois que a gente parte.
Ele apenas afagou o cabelo dela. Ele era assim mesmo... dava o tempo dela quando ela precisava. Isso ajudava-a não se sentir tão sufocada.
Os dois levantaram. A luz da lua iluminou-os.  Ela pegou os sapatos na areia, arrumou o vestido, juntou suas mãos junto a dele e saíram andando rumo as luzes. 

12 outubro 2012


"E de repente ela resolveu gritar e dar um basta naquilo tudo.
E descobriu como era estranho ouvir a própria voz, pela primeira vez. "

Iº Encontro: O inesperado acontece


Ps: Há muito tempo que eu não escrevo estórias assim, ainda mais com dialogos. Bom que tenho deixado a imaginação voar mais nos ultimos dias ao invés de escrever só sobre a vida.
Essa estória terá continuação...

Ela estava sentada absolta em sua leitura. Nem havia reparado que o gelo de seu suco já havia derretido há tempos. Suas costas doíam devido a má posição na cadeira, quase que deitada, os pés esticados o máximo para alcançar a cadeira do lado oposto a mesa. Escutou um chiado que lhe trouxe de volta ao mundo.
- Ei garota!!
De pronto ela se sentiu irritada, quem estava lhe tirando a atenção?
- Ei garota!! – ouviu a voz novamente. Então ela espiou por cima do livro.
- Esse livro é bom?
- É sim – respondeu ela um pouco ríspida.
- E fala sobre o quê?
- Sobre uma garota certamente, um tanto quanto preconceituosa, e um rapaz um pouco orgulhoso demais.
- Uhm... – foi o que respondeu a voz que havia lhe tirado a concentração. – Ela é você? – continuou a voz.
A garota revirou os olhos, não havia pergunta mais idiota a se fazer. Um pouco irritada ela abaixou o livro disposta a revidar, no entanto resolveu reparar a figura parada em sua frente. Um garoto. Estatura media, a cabeça um pouco grande para seu tamanho. Ou seria seu cabelo desgrenhado? Ela estreitou os olhos como quem analisa melhor. – Não, não sou eu. – respondeu mais educada do que queria. Ainda estava irritada por ter sido interrompida.
- É você não se parece com a Elizabeth.
A garota ergueu as sobrancelhas em espanto. Como é que ele sabia o nome da protagonista do livro? Remexendo desconfortavelmente a garota ajeitou sua postura na cadeira. Aproveitando que ela havia tirado os pés da única cadeira restante na mesa o garoto sentou-se.
- Eu já li esse livro – respondeu ele como se adivinhasse a duvida dela.
- É mesmo é?? – disse ela em tom de desconfiança. Não acreditava que um garoto, um tanto esculachado, poderia já ter lido Orgulho e Preconceito.
- Você deve estar me achando um mariquinha a essa altura. Mas eu confesso, eu gosto de ler e o fato de eu passar por aqui e ver uma garota lendo me despertou muito a atenção.
Por um momento ela se sentiu envergonhada. O garoto parecia bem a vontade conversando com ela.
- Acho estranho encontrar alguém que gosta de ler. Ainda mais um garoto! Não é muito comum encontrar pessoas que realmente gostam de ler, quero dizer, pessoas viciadas assim como eu. Mas toda vez que vejo alguém lendo um livro fico curiosa pra saber titulo do livro.
- Então você não pode ficar espantada por saber que eu parei pra conversar com você justamente porque estava lendo um livro.
- Eu compreendo exatamente você! Mas normalmente eu não tenho muita coragem de perguntar o titulo do livro ou puxar conversa com a pessoa pra saber da historia.
- Sabe o que eu gosto de fazer? – perguntou o rapaz. Agora os dois já estavam se dando bem e a irritação dela já havia sumido completamente. - As vezes eu vou praquela  praça que tem ali no final da rua, sento me perto de uma arvore e passo horas lendo.  – a garota olhou na direção em que o dedo dele indicava.
- Eu gosto de sentar nos cafés, ou nas lanchonetes que tem mesas na calçada. Quase sempre estou esperando por minha mãe e como ela é muito enrolada mato o tempo lendo.
- E o que você gosta de ler? – perguntou ele se arrumando na cadeira mais interessado com o assunto.
- De tudo! Traço o que vejo pela frente. Minha mãe as vezes briga comigo. Sempre diz “menina, tira esse livro da cara”. Mas não posso fazer nada, viciei a ler tanto assim por culpa dela.
- Como assim? Se ela também gosta de ler, ela deveria te entender.
-Aí é que tá... minha mãe é uma perua, não faz nenhum pouco o estilo culta. Quando eu era pequena ela ia para a casa das amigas e ficava horas fofocando. Foi nessa época que ela descobriu que eu ficava quetinha se colocasse um livro na minha mão. Eu era capaz de passar horas lendo sem nem ela e as amigas se darem conta da minha presença ali.
O garoto começou a rir. A garota perguntou o que lhe era tão engraçado.
- Não é que... hahaha é que... – explicou o garoto quando conseguiu se controlar - se eu te contar como eu desenvolvi o gosto pela leitura você não vai acreditar!
- Ah é? Então conta!
- Quando eu era pequeno eu fazia muita bagunça! Mas muita mesmo, então eu vivia de castigo. Meus pais tiravam de mim o vídeo game, computador, ou qualquer outro tipo de coisa que poderia me distrair e me deixavam dentro do quarto para “pensar no que eu havia feito”. Como não tinha nada pra fazer eu pegava alguns livros que tinha em uma prateleira do meu quarto ficava olhando as imagens. Aos poucos comecei a ler  e descobri que aquilo me ajudava a passar o tempo.... E agora estou eu aqui, não consigo mais viver sem um livro.
Quanto ele terminou a frase a garota sorria sorrateiramente.
- É parece que as coisas “ruins” de nossas vidas nos trouxeram coisas boas.
- Justamente! E na verdade eu sou extremamente agradecido por ter ficado tantas vezes de castigo.
-Ironia do destino.
Houve um momento de desconforto entre os dois. Parecia que o assunto tinha acabado. Foi ela que rompeu o silencio:
- Mas você tem cara de que só lê historia em quadrinhos de super heróis!!
- E você tem cara de quem só lê Nicholas Sparks e Crepusculo!
- Leio também. Livro é sempre livro – ela deu de ombros - E temos que ler de tudo nessa vida pra poder criticar, pois se não seria pré-conceitos não é?
- Mas é um absurdo que você disse!!! Eu já li Orgulho e preconceito! Como você pode pensar isso de mim?
- Aposto que esse foi o único clássico que leu. E se duvidar leu forçado pela escola pra fazer algum trabalho chato.
Ele ficou rindo e encarando ela balançando a cabeça para ela. – Sabe de uma coisa? Eu te desafio!
- Como?
- Vou falar algumas dicas e você tem que acertar o livro ou o autor, pode ser?
- Desafio aceito! – disse ela esticando a mão por cima da mesa e apertando a dele firmando o trato.
- Então vamos lá...  1º dica: conta a historia de uma escritora. 2º É datado do século XXI; 3º ela adorava ler e escrever, e não queria se casar.
- Jane Austen, Razão e Sensibilidade! – disse a garota com convicção.
- Ah, essa foi fácil fala serio! Justo da autora que você está lendo... – o garoto bateu a mão na testa como se estivesse demonstrando seu deslize em facilitar para ela. – Sua vez agora.
- Ok... vamos lá... 1º dica: o livro foi publicado a primeira vez mas não obteve sucesso. Foi só com a republicação póstuma que o livro teve sucesso...
- Jack Kerouc!
- Errou!! Espera eu contar as outras dicas apressadinho. Não vale ficar chutando.  2º dica: - continuou ela -  é um clássico contextualizado na primeira guerra mundial que narra a extravagancia da classe media alta.  
- A bicicleta azul?
- O que? Isso é livro?
- È sim. – disse ele balançando a cabeça – e Eu já li pra sua informação.
Ela fez uma careta como se desaprovasse o nome do livro.  – Você vai deixar eu falar a terceira dica ou quer ficar chutando até acertar?
- Manda ver garota!
Ela lhe mandou um olhar presunçoso.  – Terceira dica: o autor é personagem de um dos filmes de Woody Allen.
- Scoot Fistzgerald??
- É!! Até que enfim chutou certo em garoto! – ela se inclinou para frente para dar um murrinho no ombro dele.
- Essa terceira dica estava obvia!
Ela fez cara de desdém da presunção dele: - Vai sua vez agora.
- Tudo bem... Primeira dica: o protagonista é francês e mora nos Estados Unidos. Segunda dica: a trama gira em torno de uma garota com fama de safadinha, mas isso é um pouco questionável porq...
- Lolitaaaaaaaaa! – Disse ela levantando se da cadeira e dando pulinhos de alegria por ter adivinhado antes mesmo que ele terminasse a segunda dica.
- Pôooo! Essa nem teve graça.
- A próxima eu facilito pra você. Só uma dica e você vai matar, quer ver?? – Sentou-se de novo. E preparou - Preste bem atenção: ela traiu ou não traiu?
- É claro que traiu! Na minha opinião, Capitu é culpada!
- Eu acho que não traiu não...
- Porque você acha isso? – ele se inclinou pra frente como que para ouvir ela melhor.
- Filha, o que você está fazendo? – Surgiu então uma terceira voz assustando ambos  os adolescentes.
- Oi mãe... eh... estou.. conversando. –  a menina deu um sorrido amarelo para a mãe que acabara de chegar e os surpreendera.
- ah, bem... então vamos minha filha? Já acabei o meu penteado. – A mãe dela se virou um pouco para o garoto e lhe cumprimentou apenas com um aceno de cabeça ao mesmo tempo em que já estava falando no celular.
A garota levantou se um pouco desajeitada e envergonhada pela mae não ter se importado nem ao menos de cumprimentar seu amigo direito.
- Então a gente se vê por ai...
- A gente se vê...  – disse ela e virou e seguiu atrás de sua mãe... 
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