09 julho 2017

Terapia

Ao entrar no consultório para sua segunda sessão com o terapeuta, Dayse sentou-se na poltrona confortável, florida e com um fundo bege claro, quase mude. Ficou ali, sentada na poltrona por alguns minutos, afundada em sua maciez, sem falar nada.
Sabia tudo o que sentia, tinha vontade de mudar é claro, mas sequer sabia como. Talvez era por isso que estava ali... para descobrir um caminho. 
Sentia-se murcha. Trinta e poucos anos e quase sonho nenhum restando. “Será que já tinha realizado tudo que queria na vida?
Já dizia um filósofo, não se lembrava qual no momento, que a finalidade do homem era a felicidade. E a felicidade era sempre estar em busca de algo. Se ela não sentia mais entusiasmos para correr atrás de mais nada será que era feliz? 
Respirou, desanimada. Nem mesmo a sua respiração era profunda. Sua vida não passava de sensações rasas, sentia. 
Pensava tudo isso, sentada de frente ao terapeuta, mas as palavras simplesmente não conseguiam achar o caminho até a boca. 
Ele permaneceu ali, olhando-a. Talvez para dar-lhe a chance de começar primeiro, com qualquer coisa que sentisse vontade de falar. Ela sentiu-se idiota. Está ali, em uma poltrona confortável e bonita, pagando para uma pessoa lhe ouvir. Sem nem mesmo ela, dona de seus sentimentos, era capaz de se entender, será que outra pessoa conseguiria?
- Eu.... - começou ela, e um breve pigarro grudou em sua garganta.
Ele continuou esperando, paciente, calmo, como se tivesse todo dia ali. 
- Eu... sinto que preciso de novos sonhos... - deixou-lhe a voz morrer... 
- O que te impede? - questionou ele.

A pergunta a atingiu como um soco, na boca, no estômago, no coração. Ele fora direto demais em tocar-lhe as amarras. 

Ela não sabia o que responder. Talvez não queria? Se respondesse seria a confissão para si mesma? A pergunta fez com que ela viajasse no tempo, para uma época diference, lugares diferentes e pessoas diferentes, que mesmo depois de terem partido pareciam que ainda lhe acompanhavam sempre, atribuindo-lhe um peso que não era seu. 

Não sabia quanto tempo ficou ali, fazendo aquela viagem no tempo e no espaço, sem ao menos sair do lugar. Poderia ter se passado segundos ou minutos e ele ainda a aguardava, pacientemente, que fizesse todo este exercício mental. O máximo que ouviu foi o tic-tac do relógio.. Conseguiu sentir emergindo de dentro de si uma sensação nova. Seria entusiasmo? Não sabia, ainda não tinha nome, mas ela apenas sabia que era boa. Descobriu então a razão de estar ali... ela abriu os olhos, e o encarou. Ela precisava de libertar. 

Divagações contemporâneas

Esses dias uma certa frase me despertou a atenção: "de bons de briga o mundo está cheio, o que falta é gente cheia de amor". Nenhuma outra frase me fez tanto sentindo para definir os dias de hoje. 
As pessoas  estão cada vez mais intolerantes umas com as outras, sejam devido seus próprios problemas ou simplesmente pelo gesto e costume de acusar o outro. 
Talvez se o erro ou o pecado do outro for maior que o meu, então minha pena não precisa ser tão rigorosa. E assim segue um mar de pessoas acusando umas às outras, como menciona a frase, sendo bons de briga mas fracos no quesito amor. 
Ocorre que o sol é para todos e apenas os egoístas acham que seu lugar no mundo será preservado se o outro for derrotado. Grande tolice! Ninguém é melhor do que ninguém, existem apenas pessoas diferentes. 

Seremos mais reconhecidos e queridos por nossa simpatia do que nossa falsa sensação de perfeição. Não será sendo perfeitos que seremos mais amados por nossos pais, nossos cônjuges ou as pessoas que convivem a nossa volta. Isso é uma doce enganação que traz a amarga sensação de sofrimento com os próprios erros e intolerância com os dos outros. Acabamos nos esquecendo que antes de tudo somos seres humanos e sujeitos a falhas e nem mesmo Jesus Cristo agradou a todos. Mas podemos nos inspirar nos passos dele, ao invés de atirarmos pedras nos outros podemos estender as mãos. Ser melhores no amor do que em brigas.