Ao entrar no consultório para sua
segunda sessão com o terapeuta, Dayse sentou-se na poltrona confortável,
florida e com um fundo bege claro, quase mude. Ficou ali, sentada na
poltrona por alguns minutos, afundada em sua maciez, sem falar nada.
Sabia tudo o que sentia, tinha
vontade de mudar é claro, mas sequer sabia como. Talvez era por isso que estava
ali... para descobrir um caminho.
Sentia-se murcha. Trinta e poucos
anos e quase sonho nenhum restando. “Será
que já tinha realizado tudo que queria na vida?”
Já dizia um filósofo, não se lembrava
qual no momento, que a finalidade do homem era a felicidade. E a felicidade era
sempre estar em busca de algo. Se ela não
sentia mais entusiasmos para correr atrás de mais nada será que era feliz?
Respirou, desanimada. Nem mesmo a sua
respiração era profunda. Sua vida não passava de sensações rasas, sentia.
Pensava tudo isso, sentada de frente
ao terapeuta, mas as palavras simplesmente não conseguiam achar o caminho até a
boca.
Ele permaneceu ali, olhando-a. Talvez
para dar-lhe a chance de começar primeiro, com qualquer coisa que sentisse
vontade de falar. Ela sentiu-se idiota. Está ali, em uma poltrona confortável e
bonita, pagando para uma pessoa lhe ouvir. Sem
nem mesmo ela, dona de seus sentimentos, era capaz de se entender, será que
outra pessoa conseguiria?
- Eu.... - começou ela, e um breve
pigarro grudou em sua garganta.
Ele continuou esperando, paciente,
calmo, como se tivesse todo dia ali.
- Eu... sinto que preciso de novos
sonhos... - deixou-lhe a voz morrer...
- O que te impede? - questionou ele.
A pergunta a atingiu como um soco, na
boca, no estômago, no coração. Ele fora direto demais em tocar-lhe as amarras.
Ela não sabia o que responder. Talvez não queria? Se respondesse seria a
confissão para si mesma? A pergunta fez com que ela viajasse no tempo, para
uma época diference, lugares diferentes e pessoas diferentes, que mesmo depois
de terem partido pareciam que ainda lhe acompanhavam sempre, atribuindo-lhe um
peso que não era seu.
Não sabia quanto tempo ficou ali,
fazendo aquela viagem no tempo e no espaço, sem ao menos sair do lugar. Poderia
ter se passado segundos ou minutos e ele ainda a aguardava, pacientemente, que
fizesse todo este exercício mental. O máximo que ouviu foi o tic-tac do
relógio.. Conseguiu sentir emergindo de dentro de si uma sensação nova. Seria entusiasmo?
Não sabia, ainda não tinha nome, mas ela apenas sabia que era boa. Descobriu
então a razão de estar ali... ela abriu os olhos, e o encarou. Ela precisava de
libertar.
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