Ela não se considerava uma pessoa descrente. Mas muitas
pessoas lhe diriam que ela era. Não é
que ela não acreditava, ela só não esperava. Mas no fundo queria que a vida/destino
( se é que ele existisse) lhe surpreendesse.
Ela suspirou bem fundo, meneou a cabeça. Pensou que já
estava ficando louca de tanto pensar. Mas
na verdade, percebeu, que era
aquele cenário que lhe induzia toda aquela avalanche de pensamentos. Como não refletir
sobre a vida diante daquela visão? O mar calmo, a agua ainda quente do sol
escaldante que havia estalado durante o dia todo. Ainda estava calor, apesar da
brisa do mar adentrando o continente. Ao fundo a musica do lual atingia ele de
forma leve e distante. Sim, ali seria um bom lugar para pensar. Sem preocupações,
sem pressão ou pressa. O ar lhe entrava nos pulmões limpo e gelado.
Pensou
em muitas coisas, em mais do que ela poderia achar que pudesse passar em sua
cabeça em uma só noite e em poucos minutos – assuntos tão diferentes... a infância,
os livros que já havia lido, o primeiro namorado, o medo da velhice, a dor de
perder o pai... Medos e angustias na
vida eram normais, disso ela já havia aprendido. O difícil era por isso em pratica no
dia-a-dia. Mas ali, ela conseguia refletir de uma forma clara. E não havia nada
que pudesse a preocupar ou fazer sentir perder o chão dos pés como ocorria as
vezes quando ela tinha que se virar sozinha. Batalhar por uma faculdade, disputar
uma vaga de emprego... tudo isso era fases e as vezes, como muitos outros, ela
se sentia perdida. Acreditava em seu potencial, no entanto reconhecia que era
humana e que podia falhar. Será que ela realmente era boa em marketing, será
que era criativa o suficiente para elaborar campanhas que atraíssem o publico e
lhe desse sucesso profissional? Enfim... até agora o tempo estava lhe dando
vitorias.
Essa é a vida, concluiu. Como é pra todo mundo. Não existe ninguém
na face da terra isento de medos . Todos nós estamos sujeitos a pestanejar uma
hora ou outra. Mas já havia decidido que não manteria os olhos fechados por
muito tempo.
Ela morava apenas há 90 km da cidade mais próxima da praia,
no entanto quase não ia ao litoral. Ali, naquele momento, decidiu que faria
isso mais vezes, principalmente a noite. Horário mais propicio, mais bonito
para a reflexão.
Ela sentiu um pequeno toque em seu ombro. Virou a cabeça levemente na
direção, apesar de não precisar, pois
sabia quem estava ali. Podia sentir o cheiro agridoce no ar do amor. E se não
fosse pra sempre? Ela resolveu não se importar em pensar nisso...
- No que esta pensando? – perguntou ele. Ela encostou a
cabeça no ombro dele.
- Em varias coisas. Nessa vida, e até no que possa existir
depois dela.
- como assim?
- Aquilo que a gente deixa de herança sabe? Aquilo que fica
dentro das pessoas, mesmo depois que a gente parte.
Ele apenas afagou o cabelo dela. Ele era assim mesmo... dava
o tempo dela quando ela precisava. Isso ajudava-a não se sentir tão sufocada.
Os dois levantaram. A luz da lua iluminou-os. Ela pegou os sapatos na areia, arrumou o vestido,
juntou suas mãos junto a dele e saíram andando rumo as luzes.
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