18 setembro 2010

Crime e castigo

Não é repelindo um homem que se o educa, tanto mais se tratando de uma criança.
Crime e castigo,1866.

Se tivesse que definir esse livro em duas palavras eu diria que ele é intenso e complexo. Escrito em 1866, pelo russo Fiódor Dostoievski que viveu em uma época anterior ao comunismo, o livro possui um conteúdo intenso e polemico abordando o cotidiano da população, a pobreza e os problemas sociais. Além de aspectos externos como a descrição do cotidiano e as historias que se desenvolve paralelamente, a narrativa se concentra na mente do protagonista explorando o campo psicológico não só deste, como também de outros personagens – este ultimo que se dá por grandes diálogos que, por vezes, aparenta até mesmo monólogos devido a grandes falas ininterruptas que seguem por mais de uma pagina.
Quanto a seu enredo, o livro fala de um jovem paupérrimo, ex estudante de Direito, que por motivos econômicos se viu obrigado a abandonar a faculdade. Depois disso, conhece uma velha agiota na qual penhora alguns objetos de valor. Desprezando a velha por considerá-la mesquinha e inútil á sociedade – e esse sentimento do protagonista por ela pode ser interpretado como uma revolta ao sistema de classes - o protagonista planeja o assassinato da agiota alegando que esta é um peso na sociedade, nada mais do que um verme. É a partir desta perspectiva que se inicia toda a trama. Raskolnikov ao planejar o assassinato da velha, passa a martirizar-se psicologicamente. Daí vem o titulo da obra, o crime, e como conseqüência deste, o castigo – que não se dá pelas autoridades competentes, mas sim, de forma psicológica, pelo próprio protagonista.
Ao planejar o assassinato Raskolnikov age de forma calculista e por vezes frio, salvo em alguns momentos que passa em sua cabeça não acreditar que ele mesmo planejava matar alguém. O perfil do protagonista é variável, apesar de ter cometido duplo assassinato, atitude esta considerada abominável pela sociedade, Raskolnikov demonstra em alguns momentos atitudes humanísticas como ajudar financeiramente, mesmo não tendo condições, uma viúva a fazer o enterro de seu marido, ou até mesmo quanto o jovem lê para uma prostituta moribunda, a passagem da bíblia em que Lazaro voltou a vida, restituindo a ela fé e esperança. Apesar de Raskolnikov ser um assassino, o leitor assim não consegue reconhece-lo, justamente por estar a par do interior psicológico do personagem, vivendo junto com este, suas angustias psicológicas.

A pós cometer o crime que fora anteriormente cada segundo premeditado, o jovem se vê obrigado a também matar a irmã da velha agiota, Lisiaveta, pessoa querida pela comunidade e com fama de coração bom, que teve esse trágico destino por presenciar o cadáver morto enquanto ainda o assassino se encontrava no local.
Esse momento da narrativa ocorre de forma intensa prendendo o leitor a cada frase porém, após o suspense deste episodio ocorre uma reviravolta na obra se torna um pouco enjoativa pois o autor explora apenas os aspectos psicológicos do ser humano e a confusão mental do protagonista. Em um segundo momento a este, entra em cena novos personagens como a mãe, irmã e um amigo de Raskolnikov, desenrolando assim narrativas paralelas a principal.
A obra é recheada de idéias, muitas vezes considerada até futurísticas para época. Estas são expostas ou pela mente do protagonista ou por outros personagens na forma de diálogos questionadores. É explicito o aspecto existencialista da obra, fato que considero peculiar para uma obra escrita no século XIX. Mesmo nesta época, o autor já aborda temas que vivemos hoje, no século XXI como, por exemplo, a questão do capital e a situação da liberdade da mulher. Pode se citar o seguinte trecho extraído da obra quando dois personagens conversam sobre uma prostituta:

“Mas, diga-me: conhece a filha do homem que morreu, essa magricela... diz-se que ela... hein?... é verdade?
-O que tem? Estou convencido de que a situação dela é a situação normal da mulher, porque não? Isto é, estabeleçamos uma distinção. Na sociedade atual, esse gênero de vida não e completamente normal, porque é forçado; mas na sociedade futura será absolutamente normal porque será livre. Mas, mesmo agora, ela tem o direito: ela sofria, e isso constitui o seu, assim por dizer, capital, do qual possuía o absoluto direito de dispor. Evidentemente, na sociedade futura o capital não terá razão alguma de existir, mas o seu papel terá um outro nome, e será regulado por uma forma racional. Quanto a Sofia Siemionovna, vejo o seu procedimento como um protesto enérgico contra a organização da sociedade, e tenho-lhe por isso ate um respeito. Direi mais: quando a vejo sinto-me até feliz¹.”


Alguns episódios se desenvolvem no estilo da tragicomédia clássica, onde os personagens, em uma situação comum, são levados ao ridículo pelo autor, para assim fazer uma crítica á sociedade.
Um fato peculiar da obra é o protagonista não ter manifestado nenhuma justificação concreta para o crime. Durante a narrativa varias suposições é feita com o intuito de justificar a atitude do jovem, contudo nenhuma delas são confirmadas. Dentre as possíveis causas se encontra o fato de o personagem considerar a velha indigna e para justificar sua atitude o protagonista relata “uma teoria, criada por ele, na qual, entre outras coisas, um crime pode ser considerado licito, se sua finalidade é boa: um único crime resultado de cem boas ações!”². Uma segunda causa apresentada foi a sanidade mental do jovem, no qual muitos diziam ter sido comprometida devido ao fato de que este passara um longo período sozinho sem conversar com ninguém.
Outra possível causa do assassinato seria a pobreza. Raskolnikov por ser paupérrimo, desamparado pela sociedade, rouba não para ter o dinheiro – pois ele nem mesmo fez uso dele - mas por revolta de a velha cobrar excessivos juros, explorando os demais que não possuíam condições.
Creio que Dostoivisk propositalmente deixou a cargo do leitor a função de se questionar sobre os motivos do crime. Em minha opinião, a justificativa mais plausível da motivação do protagonista é a revolta social, isto é, a atitude do jovem se deu como uma forma de reivindicação de sua classe social, considerando o contexto da historia inserido em um período anterior ao comunismo.
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Por fim, considerando a obra como um todo, o autor explora diversos aspectos sociais, psicológicos, existencialistas. É possível verificar na obra uma denuncia social feita por parte do autor. Apesar de ser uma narrativa do século XIX é constatável diversos aspectos atuais nela.
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Sofrer e chorar – ainda é viver.
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Joice

Um comentário:

Daniel Strauch disse...

Joy, aconteceu alguma coisa errada na sua postagem! Não consigo ler nada!!!