08 março 2015

Questão de tempo

Lembro-me de certa vez eu e ela assistindo um filme tarde da noite. Era um romance desses quaisquer que repetem um milhão de vezes no canal fechado. Não me lembro bem a historia, mas sei que o personagem principal podia voltar no tempos sempre que queria consertar algo. Mas ele fazia tudo isso para agradar a namorada, então se algo não desse certo, ele voltava no tempo apenas para poder fazer certo e conquista-la.
Com a cabeça apoiada no meio peito ela me perguntou se havia algo na minha vida que eu gostaria de voltar no tempo e consertar. Dei de ombros, disse que havia coisas que em certa época eu gostaria que tivesse acontecido de um jeito, mas que preferia tudo como estava naquele momento.
Se hoje, ela me repetisse a mesma pergunta, minha resposta seria diferente. Eu nunca fui de preocupar muito com isso... ela que sempre se preocupava com o futuro ou agir da maneira certa. Cada um tem seus medos e um dos medos dela era de se arrepender... Ela que tinha uma preocupação imensa com o arrependimento, o que a fazia ser as vezes indecisa. Eu , pelo contrario nunca me preocupei com arrependimentos, mas hoje, hoje eu sei a utilidade de se preocupar com essas coisas bobas. Na época eu achava que era bobeira, hoje percebo que essa preocupação faz a gente acertar mais na vida, nas escolhas. Não acredito, logo eu, pensando assim. Talvez seja a maturidade chegando, os cabelos brancos aparecendo que me faça agora pensar assim. Acreditar que qualquer escolha, a mais singela que possa parecer, como a cor da camisa que você resolve vestir pela manha, pode influenciar, de certa forma na sua vida.
Por exemplo, lembro dia que a conheci. Eu usava uma camiseta amarela. Sempre odiei amarelo, mas era a única limpa que eu tinha no meu armário, então peguei sem hesitar e sai de casa, já que estava atrasado. E foi justamente por causa da cor dessa camisa que a conheci. “Ei, você é Pitter Cajon?” senti uma cutucada no ombro e olhei pra trás.  Vi uma figura pequena, olhos grandes, cabelos ruivos. “ Não” respondi estreitando as sobrancelhas e analisando aquela figurinha na minha frente. “Ah” respondeu ela de volta dando de ombros. “ Estou procurando esse tal de Pitter, mas claro que não poderia ser você, nem cara de espanhol você tem”. Continuei olhando para ela por alguns segundos sem reação. -  Deixa pra lá, foi mal aí! – falou ela andando de costas antes de se virar em outra direção.
- Espera! – gritei de volta. Ela parou, sem entender muito, mas continuou me olhando. Travei. O que eu ia falar pra ela? “Nossa como você é linda?”. Ela me acharia um louco. Me forcei a pensar em algo pra dizer, sem que soasse muito idiota. O vento soou um pouco mais forte movendo uma mexa dela para o rosto. Delicadamente ela afastou com o dedo o cabelo rebelde. Fazia calor em Paris naquele dia e ela usava um vestido colorido e botas marrons até o tornozelo, fazendo o tipo vintage.
- Esquece, te confundi com outra pessoa. Fiquei de encontrar com o primo da minha colega de quarto aqui, ele está vindo da Itália e tudo que ela me disse é que ele estava de camiseta amarela...
- Não tem problema – disse e me aproximei. Ela sorriu e abaixou os olhos tímida, constrangida, evidentemente, pela abordagem desastrosa.
Temos depois, riamos sempre que lembrávamos este primeiro encontro. Talvez se a amiga de quarto dela não a tivesse pedido para encontrar o primo, talvez se a amiga tivesse enviado uma foto do sujeito por sms, ela não teria me confundido. Ou até mesmo eu, se não tivesse vestido aquela camisa, naquela manhã, não teríamos nos conhecido.
- Se você quiser, posso te ajudar a encontra-lo. – foi a coisa mais inteligente que consegui dizer e não deixa-la ir. Ela deu de ombros e se aproximou um pouco, meio precavida ainda.
- Então, não precisa se incomodar..
- Não é nenhum incomodo, não estou fazendo nada mesmo. Seria até divertido.
Ela sorriu.
- Não tenho nenhuma foto para facilitar as coisas. Minha amiga apenas não pode vir e pediu que eu viesse busca-lo, pois como é a primeira vez dele aqui em Paris ficou com medo de que ele se perdesse.
- Bem, pelo menos sabemos que ele está de camiseta amarela. – disse fazendo careta. Ela gargalhou com aquele jeito natural que só ela sabia ter.
Ficamos esperando o tal primo por uma hora e foi tempo suficiente para me apaixonar. Cansados de esperar, sentamos em um café em frente a Piazza e conversamos até o anoitecer. Foi nosso primeiro encontro, não encontro, que tivemos. Algo bem casual, preparado pelo próprio acaso. Na hora de se despedir, crestes que o tal primo não apareceria mais, trocamos um beijo no rosto e ela disse um ”tchau” meio sussurrado como se dissesse “ então é só isso?”. Claro, que eu não a deixaria a vida leva-la assim, tão fácil. Trocamos nossos contatos e prometemos nos encontrar novamente.
Foi esse nosso começo e lembro ainda de como fosse hoje, a sensação de ciúmes que fui pra casa daquele tal primo da amiga dela. E se ela o tivesse encontrado? Talvez ela teria se apaixonado por ele, e não por mim.

Com o tempo me acomodei com ela. Deixei de fazer pequenas coisas cotidianas que a fazia feliz. Diferentemente do cara do filme, que sempre queria acertar com a namorada. Fico pensando como seria se eu tivesse a capacidade de voltar no tempo e consertar cada burrada que fiz, só pra ter ela de volta. E se hoje ela me perguntasse se me arrependo, ou se eu sequer tivesse a oportunidade de dize-la que sim, hoje eu tenho medo do arrependimento, porque eu me arrependi. Me arrependi de perde-la, me arrependi de ter sido tão idiota. E quer saber, eu queria que a vida me desse a oportunidade de controlar o tempo, voltar e consertar tudo. Mas tudo que a vida me dá é o livre arbítrio para escolher e eu não soube usa-lo. 

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