06 junho 2015


SÃO PAULO, ZONA OESTE, 2021

O som do carro tocava baixo em uma estação local, o transito estava como de costume: parado. Ela estava absolta em seus pensamentos, após um longo dia de trabalho, cansada e com fome, louca para chegar em casa. Não sabia como gostava daquela cidade. Talvez seria pela diversidade cultural. Fora isso ela odiava o transito e o clima quase sempre fechado. Nascida em uma cidade do interior de Minas Gerais, a vontade de sair de perto de pessoas com mente interiorana a motivou trabalhar fora. Após um longo período residindo em outro país, estava de volta ao Brasil, agora trabalhando em São Paulo.
Não era sua cidade preferida, mas aprendera a se adaptar a lugares diferentes e explorar o que a cidade lhe oferecia de melhor. Na radio começou a tocar uma musica antiga, de uma banda Britanica que marcara uma época de sua vida. Sorriu silenciosamente e aumentou o som. O toque invadia seus ouvidos, a melodia completamente sincronizada “Crawling back to back to you, Ever though of calling when you've had a few?”.
 Foi imediatamente transportada para 6 anos atrás, uma certa noite, naquela mesma cidade, quando estava ali apenas a passeio descobrindo a juventude...


SÃO PAULO, ZONA OESTE, 2015

O som do baixo saia ainda meio irregular. Ele tentava afinar o instrumento para começar o show. Estava quase na hora. Mordiscou as ultimas batatas fritas que o Pub oferecia às bandas antes de se apresentarem. “Anda logo Viado” provocou seu amigo, o vocalista, dando-lhe um soquinho no ombro. “Vamos estralar essa porra!”. Subiram no palco. Era tão pequeno que mal conseguiam se mexer. Tirou a camisa, jogou num canto, passou a alça do Baixo pelo pescoço e ajeitou-a no ombro. Começaram a tocar, o rock pesado inundou todo o lugar.
Do outro lado do Pub duas garotas pediam seus drinks. “-Ei, pega leve hoje com as Caipirinhas” – disse a morena – “ Não vai me dar trabalho como da ultima vez.” A outra lhe mandou uma psicadela pelo canto do olho. “Amiga é pra essas coisas” – retrucou.
Pegaram seus drinks e com certa dificuldade conseguiram se aproximar mais do palco. “ CARA! Que visão é essa?” – disse a loira que estava na frente. A morena deu um passo para o lado tentando alcançar o local que sua amiga focava o olhar. No palco os 4 integrantes da banda tocavam, dois deles sem camisa. “ Oh mai God!” – exclamou. Seus olhos pararam direto no baixista: magro, porém com o peitoral definido, os gominhos dos músculos delineados, pele morena meio que bronzeada do sol. Ele estava extremamente sexy com a alça do baixo passando pelo pescoço e sem camisa. Contemplou aquela visão por alguns segundos. Ele se movia como um louco, apesar do espaço pequeno no palco, tocava com emoção, envolvido completamente pela musica.
“Olha as tatoos desse cara. Super estilo!” – Ela olhou para amiga, depois para o palco de novo. A amiga se referia ao vocalista. Fazia do tipo fortão, tatuado e cabelos lisos e desgrenhado até os ombros. Completamente roqueiro. “Pra quem adora um sertanejo e um peão, você até que tá me surpreendendo”. – disse ela erguendo uma sobrancelha.
Curtiram o show, cada musica melhor que a outra. Eles realmente mandavam muito bem. Elas conversaram com algumas pessoas do pub, beberam mais alguns drinks, porém a morena não deixava de lançar olhadelas furtivas para o baixista. E ele, super empolgado, balançava o pescoço como uma mola. Bem provavelmente amanheceria travado no outro dia devido aos movimentos bruscos.
Do palco, ele não conseguia enxergar nada que estivesse mais que um metro de distancia. Sem óculos tudo que conseguia ver era um borrão de pessoas. Na realidade não se preocupou muito em enxergar. Ver o rosto das pessoas e os olhares de avaliação do publico só lhe servia para deixar-lhe mais nervoso enquanto tocava. Quase duas horas depois se sentia cansado e suado de tanto se movimentar. A alça do baixo já lhe incomodava o ombro devido o atrito com a pele.
Na ultima musica sentou-se no chão do palco em com as pernas nos degraus apoiou o instrumento na coxa. Tocou um solo com todo sentimento, deixando que o som chegasse até seus ouvidos penetrando até a alma. Musica realmente era sua praia. Descobrira isso quando começara a tocar aos 15 anos.
Após a ultima nota levantou-se, tirou a alça do pescoço e de costas para o publico vestiu a camisa. A morena perto do palco, que passara a noite toda lhe observando, reparou nas tatuagens em suas costas; logo abaixo do pescoço bem no meio centro haviam três pequenos símbolos dos quais ela não teve tempo de identificar.
No bar, enquanto pegava outra bebida, a morena viu o baixista se aproximar. Ele se apoiou no balcão ao lado dela e pediu uma cerveja. Agora vestido e de óculos aparentava um estilo mais intelectual-casual, o que não o fez menos atrativo para ela, pelo contrario.
- Vocês mandaram bem, parabéns -  Disse ela. Não esperava nada mais que um “obrigado” por parte dele. Estava acostumada com caras de bandas que se achavam estrelinhas, ainda mais logo após saírem do palco.
-  Que bom que gostou – respondeu ele. – Por enquanto a gente faz cover de bandas famosas, mas temos algumas composições próprias. Aceita uma bebida?
- Ah, já pedi, obrigada – Nesse momento a garçonete lhe entregou duas caipirinhas. Ele olhou para as bebidas e disse: “ Tá inspirada”. Ela sorriu de volta e explicou “ Uma é da minha amiga, ela foi ao banheiro e já deve estar volt...”.
Uma mão surgida do nada lhe tomou uma das bebidas. Era a amiga loira, que voltara do banheiro já levemente alterada pelo álcool. “– E ai, cara, cadê seu amigo fortão?” disse ela se inclinando um pouco para frente.
- Hã..? – disse o garoto, meio surpreendido ou assustado.
- Tá falando de mim gata? – surgiu o vocalista fortão atrás dos três.
- Amiga, acho que você já está...
- Oieee! Você canta muuuiiito bem! – disse colocando a mão no ombro dele.
- Obrigado! Afim de dançar? – Na caixa de som saia uma musica agitada e som alto. Os dois se afastaram para longe do bar. O baixista virou-se para a morena, ambos um pouco sem graça.
- Então... vou encontrar um lugar para me sentar – ela virou-se e foi rumo à alguns sofás no fundo do Pub dos quais haviam varias pessoas sentadas dormindo. Com certeza eram bêbados esperando por seus amigos animados. No sofá haviam manchas secas de vômito, registro de noites anteriores.
Ela percebeu que ele a seguia e quando sentou em uma ponta vazia do sofá, tentou deixar espaço para que também coubesse ele. Observou as paredes pintadas de preto pichadas com desenhos estranhos. Uma das paredes estava coberta de assinaturas do teto ao chão. Ele apontou em uma direção e disse “A minha está ali” – ela olhou na direção em que ele apontava. “Lugar maneiro esse” – disse ela balançando a cabeça em tom afirmativo. “ Sinto falta de lugares assim onde eu moro”.
- De onde você é?
- De uma cidade do interior de Minas Gerais. Lá é terra do sertanejo então muito difícil desfrutar de um rock de qualidade.
- Que pena. Está aqui de passagem?
- Sim, eu e minha amiga viemos passar férias. As vezes cansa sabe? Mesmos lugares, mesmas pessoas, então eu e ela preferimos viajar. – Ele balançou a cabeça afirmativamente enquanto dava outra golada na cerveja. – E você ? – continuou ela – É daqui mesmo?
- Sim... tenho um trampo durante a semana e estudo a noite. Nos finais de semana a gente toca e ensaia. Por enquanto ainda não dá pra viver só de musica.
Conversaram por muito tempo seguido até que o lugar se esvaziasse e a musica na caixa de som ficasse mais baixa. Ela esquadrinhou o lugar com os olhos sem sucesso em encontrar a amiga. Pegou o celular e enviou mensagem de texto “Cadê você sua maluca? Tô preocupada”. A garçonete se aproximou dos dois e perguntou se ainda iriam querer outra bebida. Ambos negaram.
- Tenho que terminar desmontar o equipamento – disse ele se levantando.
- Ah, tudo bem – disse ela meio aflita olhando para os lados sem encontrar vestígios da amiga. Ele percebeu a aflição dela. “ Vem” – disse estendendo-lhe a mão. “Vou desmontar o equipamento e te ajudo a encontrar sua amiga.”
Próximo ao palco os outros dois integrantes da banda já tinham empacotado tudo. O mais baixo disse exasperado: “- Onde você tava cara? O maluco do Y saiu daqui com uma loira, disse que amanha ele volta para pegar a parte dele”. Só então que percebeu a garota que também se aproximou. “Oi” – disse ela um pouco tímida. Se sentiu um pouco frustrada, a amiga havia lhe abandonado de novo, como já fizera varias vezes. A diferença agora era que estava em uma cidade grande desconhecida. Pelo menos em sua cidade sabia o rumo de casa.
Percebendo a desanimo da garota ele colocou a mão em seu braço e falou para que ela não se preocupasse. Ele encontraria um taxi de uma companhia segura para lava-la até o hotel. Tranquilizou-a também quanto a amiga. Ela estava em boas mãos. Sentiu-se um pouco mais segura, apesar de que não queria ir para o hotel. Queria passar mais tempo com ele.
Ele pegou o baixo colocou dentro da capa, pagaram a conta e saíram do pub.
- Ah, que beleza! – A chuva caia grosseiramente. Correram para debaixo de uma marquise para se protegerem dos pingos molhados.
- Saco! Além disso eu tô com fome e acho que a cozinha do hotel não vai estar aberta a essa altura. – Ela reclamou passando a mão no cabelo que já tinha se arrepiado todo com o vento e os pingos.
- Olha... se você quiser... eu hãã, moro a duas quadras daqui. Posso fazer alguma coisa pra gente comer. Também estou com fome. – sugeriu ele meio incerto do que estava fazendo.
Ela bufou. Não queria ir pro hotel.  Queria que ele a abraçasse. Estava toda molhada e irritada com a amiga. Não sabia bem se poderia confiar em uma pessoa que acabara de conhecer. O tom de aventura da situação a instigou. Deu de ombros como quem dizia tanto faz. Foda-se! Ela bem que queria. Não precisava de desculpas que estava chovendo ou que estava com fome para acompanha-lo.
Pegaram na mão e saíram correndo na chuva. Atravessaram dois quarteirões até virar uma esquina e parar em frente a uma portinha. Com mãos hábeis ele abriu a porta e subiram uma escada até um corredor de luminosidade fraca e com outras três portas. Entraram na segunda porta. Era uma quitinete minúscula, em cima de cômodos de comercio, mas era ajeitada.
Nas paredes havia quadros de bandas famosas. A cozinha era conjugada com a sala. A mesa era um balcão que delimitada os dois cômodos. Além da porta de entrada havia mais outra porta, o quarto. Ela deu uma olhada de soslaio naquela direção, contudo não conseguiu visualizar nada lá dentro. A sala tinha apenas uma TV e uma poltrona. Na verdade não cabia muito mais do que isso.
Uma Yorkshire veio correndo e começou a pular nos joelhos dele. “ – Oi querida, está com fome?” A cachorrinha, com um laço na cabeça soltou duas latidas.
- Você tem uma yorkshire? – disse ela espantada. Ela um cachorro bastante feminino para um homem que morava sozinho.
- É da minha namorada. Ela mudou para outro apartamento que não aceita cachorros e enquanto isso essa coisinha fica aqui comigo.  - Disse ele passando a mão pela cabeça da cachorrinha.
Ela sentiu um balde de água fria em sua cabeça ao ouvir a palavra “namorada”. Por essa não esperava. Estava ensopada, com fome, na casa de um cara que ela estava afim e que tinha namorada. Ele tirou a camisa deixando a mostra os músculos definido dos braços e barriga. Ela lhe lançou um olhar de cobiça proíbida.
Ele percebera a forma com que ela o olhava. Tinha os olhos pretos, cílíos grandes e olhar penetrante. Sentia vontade de envolve-la com os braços, e beijar-lhe intensamente à boca, descer a mão por suas costas... sentir o contato da pele dela em sua barriga, bem junto ao seu corpo. Não tentou disfarçar seus pensamentos, sabia que não conseguiria. Perguntou-se se ela havia notado o que ele pensara.
- Você sempre faz isso?
- O que? – indagou ele se dirigindo a cozinha. Abriu a geladeira como quem analisa as possibilidades ali dentro. A calça preta molhada lhe caia de forma sexy no quadril.
- Ficar pelado assim, perto das pessoas.
Ele soltou uma risada. Pegou o queijo na geladeira, o pão no armário depositou em cima do balcão onde ela estava debruçada. – Não estou pelado, só estou sem camisa. E além do mais estava todo molhado.
- Se continuar tocando pelado desse jeito vai acabar ficando famoso. – disse ela sorrindo.
Ele deu a volta pelo balcão seguindo em direção ao quarto. Lançou-lhe um olhar penetrante acompanhado de um sorriso lerdo. Ele voltou com uma toalha e uma troca de roupa na mão. Atirou as peças na cara dela. – Toma, troque de roupa, você está toda molhada. Desse jeito vai ficar resfriada.
Ela analisou a peça que ele havia lhe jogado. Era um pijama feminino.  – Eu não vou vestir uma roupa da sua namorada. – disse ela tentando ressaltar a ultima palavra.
- Por que não? Vocês tem praticamente as mesmas medidas e além do mais ela não se importaria.
- Acha mesmo isso? Você traz uma garota desconhecida para seu apartamento, e ainda empresta uma roupa dela? Não obrigada.
Ela colocou a roupa em cima da poltrona. Tirou o coturno encharcado. Sabia que no outro dia ele estaria insuportavelmente fedido de chulé. Passou a toalha pelos cabelos, secando-os.
Ela checou o celular, nenhuma mensagem da amiga. “Vou torcer seu pescoço quando te encontrar”. Segundos depois veio a resposta. “Já tô sabendo que você está com o baixista. Larga de ser velha e divirta-se. Eu tô bem, não preocupa.” Ela revirou os olhos. Apertou em responder: “Ele tem namorada”. A resposta chegou em segundos novamente. “Duvido que ele consiga resistir a você. E não me enche!! Byeee”. Ela gostava da amiga desajuizada. No fundo ela queria ser um pouco assim, despreocupada com tudo. Tentou relaxar, aproveitar o momento, como estava tentando nos últimos dias.
- Você é daquelas viciadas em tecnologia?
- Não muito – Ela guardou o aparelho. A bateria estava acabando mesmo, melhor economizar, caso precisasse.
Comeram os sanduiches, sentados um de frente para o outro. Estavam famintos. Se sentiram bem mais confortável um com o outro agora.
- Vem aqui, quero te mostrar uma coisa. – disse ele.
O quarto também não era muito grande, assim como o resto do apartamento. Cama de solteiro, guarda roupa pequeno com uma das portas abertas e abaixo da janela um pequeno armário com discos de vinil e CDS de bandas atuais.
- Acho que você é a única pessoa em plena era digital que tem discos de Vinil e CDS. – Disse ela impressionada. Sentou-se no chão e começou mexer primeiro nos Vinis. Beatles, Elvis Presley, Maycon Jackson.
- Tenho também algumas fitas cassetes com gravações caseiras de bandas da década de 90.
Ele lembrou da época de colegial em que gravava fitas para ouvir no disk-man. Dos tempo de banda da escola, de tocar violão na hora do intervalo.
- Fantástico. – Exclamou ela. Começou a fuçar no CDs. Green Day, U2, The killers, dentre outras bandas indies. Encontrou todos os CDs já gravados do Arctic Monkeys. Deu um salto. – Caraaaaca, você tem a coleção completa!!
- Você gosta deles? Ultimamente virou meio modinha.
- Adooro! Fui no show desses caras ano passado. Foi foda!
Ele levantou uma sobrancelha. Lembrou se de uma parte de uma musica deles “It's just, I'm constantly on the cusp of trying to kiss you”
– Além de linda você tem um puta bom gosto! Se eu não tivesse namorada já teria te beijado.
Ela ficou surpresa com o comentário dele. Não soube o que falar. Então apenas sorriu.


SÃO PAULO, ZONA OESTE, 2021

         Meia hora depois, já em casa, a primeira coisa que fez ao abrir a porta do apartamento foi ligar o notebook. Digitou no Google o nome de uma banda. Não sabia que resultados exatamente apareceriam, afinal já se fazia tantos anos. Não foi fácil de achar. Sequer lembrava o sobrenome dele, o máximo o nome da banda e seu primeiro nome. Em 6 anos muitas coisas poderiam ter mudado; ele sair da banda, ter se casado e agora com filhos. Ou ter mudado de cidade, quem sabe ter seguido outra área profissional. Assim como ela, as coisas haviam mudado muito. Não era mais a mesma pessoa.
         Clicou em um link. Era um site de programação noturna paulistana. Ficou surpresa e empolgada com o que encontrou. Descobrira que ele faria um show naquela noite há 12 km de distancia de onde ela estava. Extremamente perto, considerando a imensidão daquela cidade. Havia a possibilidade de não ser ele, ser alguém com o nome parecido. Levantou-se em um salto, resolveu se arriscar. Essa noite ia para balada.
....

         Ele afinava o equipamento, como todas as vezes antes dos shows. Buscava o tom certo dependendo das musicas que faziam parte do repertorio. Mesmo depois de tanto tempo tocando ainda sentia certo nervoso antes de tocar. Uma emoção em fazer o que realmente gostava.
No meio do show teve a sensação de ver um rosto conhecido na plateia. Tentou focar o olhar, mesmo assim não conseguia distinguir bem o rosto das pessoas sem óculos, além de que tinha uma luz direcionada para iluminar o palco que sempre o segava. Pensou ser coisa da sua cabeça, impossível reencontrar uma pessoa, depois de tanto tempo, em um pub pequeno no meio de São Paulo durante uma apresentação simples em plena semana. É só que ele tinha sonhado com ela na semana anterior. Meneou a cabeça, espantando pensamentos.
Ela chegou ao pub no meio da apresentação. Durante a semana as apresentações aconteciam mais cedo. No caminho veio pensando que poderia ser uma loucura. Como seria encontrar uma pessoa depois de tanto tempo? Talvez ele não fosse mais a mesma pessoa, poderia não sentir-se tão atraída – ou vice versa - afinal as pessoas mudam com as circunstancias da vida. Ou poderia ter sido apenas naquela noite, o tom proibido de sentir-se atraídos, ou coisa da idade mesmo.
 Pegou uma cerveja no bar.  O pub estava relativamente vazio. Ele tocava com a mesma desenvoltura, apesar de agora apresentar um tom de maturidade em seus gestos. Em algum momento teve a sensação de que ele a olhara, no entanto não apresentou nenhuma expressão de reconhecimento. Resolveu se aproximar do palco.
Focando o olhar nela, agora ele tinha certeza. Começaram a tocar uma música mais lenta, o que o permitia desviar mais a atenção do instrumento. No momento que antecedeu a próxima musica, aproximou-se do vocalista de cochichou algo no ouvido dele. O amigo apenas balançou a cabeça em tom afirmativo.
- Galera, muito bom estar com vocês novamente. Antes de terminar o show quero ceder o espaço para meu amigo que resolveu tocar uma musica de ultima hora. Agora é com você brother.
Ele foi para o centro do palco. Ajeitou o baixo no pescoço e o microfone próximo à boca. “Essa música é uma dedicação especial para uma pessoa que não vejo há muitos anos, mas que mesmo assim continuou me inspirando”. Começou a tocar. “Do you ever get that fear that you can't shift the type that sticks around like something in your teeth”. Poucas vezes em sua vida arriscara a cantar. “I've dreamt about you nearly every night this week.”
 Ela o observava parada no mesmo lugar. Quando desceu do palco foi direto falar com ela. “Você não mudou nada”. Por um momento ambos não sabiam muito bem o que fazer. “Do I wanna know? If this feeling flows both ways”. A música ainda pairara pela mente deles, fazendo com que cada frase encontrasse sentido na realidade.
 “E você está com cabelo branco” – ela disse e passou a mão na cabeça dele, ainda incerta se teria tal intimidade. Ele a abraçou forte. O cheiro do cabelo dela fez com que ele relembrasse mais vivamente o passado. “Sad to see you go. Sort of hoping that you'd stay”. Naquela noite ficaram conversando até o amanhecer e depois cada um seguiu seu caminho, voltaram para sua rotina. “We both kow... that the nights were mainly made for saying things that you can't say tomorrow day”.
Ficaram por um tempo ainda assim. Apesar de ambos varias vezes terem pensado em reencontros casuais, sequer poderiam imaginar a intensidade do momento. Ela pensou que afinal tivera a coragem de procura-lo e não deixar para o destino - que talvez sequer se encarregasse se proporcionar um reencontro. “So have you got the guts?” Ela também não tinha a mínima noção do que havia acontecido com ele aquele tempo. Poderia muito bem ainda estar com aquela mesma namorada, ou talvez outra. Afinal a vida não para por causa de uma pessoa que você conheceu em uma noite qualquer. “Been wondering if your heart's still open”.
 Por sua vez ele pensara varias vezes, durante esses anos, se ele havia mexido com ela da mesma forma que ela o desestabilizou. Quando terminou seu namoro, dois anos depois, ainda tinha ela na cabeça. Abraçou-a, pensando que nunca mais soltaria, mas não sabia o que ela sentia. “I don't know if you feel the same as I do but we could be together, If you wanted to”.
Não sabiam de fato o que cada um pensava em relação ao outro, mas qualquer pessoa que visse os dois poderia perceber que estavam completamente afim um do outro. Não sabiam se era momentâneo, apenas uma aventura ou algo para durar por muito tempo. Quando se sente algo, não dá para saber o prazo de validade.
“Muito bom rever você” – disse ele por fim, soltando-a do abraço.
- Você melhorou bastante no baixo, andou tendo aulas? – brincou ela. – Não sabia que você também cantava.  –  Ele riu com o comentário dela.
- Ah, eu arrisco às vezes.
Algum tempo depois saíram do pub e começaram a caminhar pela rua.
-  Mas e então, como andam as coisas? – perguntou ela – Você parece ótimo.
- É que minha esposa cuida bem de mim, você sabe como é. – retrucou ele, tentando esconder um sorriso.
Ela não ficou surpreendida, apesar de desapontada. Era previsível. Ele não conseguiu conter a gargalhada.
– Estou brincando, não me casei. Você fez uma cara muito engraçada. – Ela bufou e revirou os olhos. Deu-lhe um soco no ombro. Pararam de caminhar e encararam um ao outro.
- Lembra de uma das coisas que te disse naquela época... que se eu terminasse o namoro, a primeira coisa que eu faria era ir pra Minas Gerais – Ela fez que sim com a cabeça. – De fato eu tentei, tentei te procurar e encontrar você, de todos os meios possíveis, mais você foi embora sem sequer me deixar uma pista. – Ela continuou olhando para ele, olhos profundamente negros e cílios grandes.
 - Eu passei um tempo fora. Acho que seria um pouco difícil você ter me encontrado. – Voltaram a caminhar. Ela continuou depois de um momento.  – Mais hoje ouvi “Do you Wanna Know” no carro e me lembrei de você. Resolvi procurar – ela virou a cabeça de lado e lançou-lhe um sorriso. – Não imaginava que te encontraria.
- Sabe o que eu estou com vontade de fazer? – perguntou ele. Pararam de caminhar novamente.  -  O que eu deveria ter feito há 6 anos atrás”.
“It's just I'm constantly on the cusp of trying to kiss you”

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