SÃO PAULO, ZONA OESTE, 2021
O som do carro tocava baixo em uma estação local, o
transito estava como de costume: parado. Ela estava absolta em seus
pensamentos, após um longo dia de trabalho, cansada e com fome, louca para
chegar em casa. Não sabia como gostava daquela cidade. Talvez seria pela
diversidade cultural. Fora isso ela odiava o transito e o clima quase sempre
fechado. Nascida em uma cidade do interior de Minas Gerais, a vontade de sair
de perto de pessoas com mente interiorana a motivou trabalhar fora. Após um
longo período residindo em outro país, estava de volta ao Brasil, agora
trabalhando em São Paulo.
Não era sua cidade preferida, mas aprendera a se
adaptar a lugares diferentes e explorar o que a cidade lhe oferecia de melhor.
Na radio começou a tocar uma musica antiga, de uma banda Britanica que marcara
uma época de sua vida. Sorriu silenciosamente e aumentou o som. O toque
invadia seus ouvidos, a melodia completamente sincronizada “Crawling back to
back to you, Ever though of calling when you've had a few?”.
Foi imediatamente transportada para 6 anos atrás,
uma certa noite, naquela mesma cidade, quando estava ali apenas a passeio descobrindo
a juventude...
SÃO PAULO, ZONA OESTE, 2015
O som do baixo saia ainda meio irregular. Ele
tentava afinar o instrumento para começar o show. Estava quase na hora.
Mordiscou as ultimas batatas fritas que o Pub oferecia às bandas antes de se
apresentarem. “Anda logo Viado” provocou seu amigo, o vocalista, dando-lhe um
soquinho no ombro. “Vamos estralar essa porra!”. Subiram no palco. Era tão
pequeno que mal conseguiam se mexer. Tirou a camisa, jogou num canto, passou a
alça do Baixo pelo pescoço e ajeitou-a no ombro. Começaram a tocar, o rock
pesado inundou todo o lugar.
Do outro lado do Pub duas garotas pediam seus
drinks. “-Ei, pega leve hoje com as Caipirinhas” – disse a morena – “ Não vai
me dar trabalho como da ultima vez.” A outra lhe mandou uma psicadela pelo
canto do olho. “Amiga é pra essas coisas” – retrucou.
Pegaram seus drinks e com certa dificuldade
conseguiram se aproximar mais do palco. “ CARA! Que visão é essa?” – disse a
loira que estava na frente. A morena deu um passo para o lado tentando alcançar
o local que sua amiga focava o olhar. No palco os 4 integrantes da banda
tocavam, dois deles sem camisa. “ Oh mai
God!” – exclamou. Seus olhos pararam direto no baixista: magro, porém com o
peitoral definido, os gominhos dos músculos delineados, pele morena meio que
bronzeada do sol. Ele estava extremamente sexy
com a alça do baixo passando pelo pescoço e sem camisa. Contemplou aquela visão
por alguns segundos. Ele se movia como um louco, apesar do espaço pequeno no
palco, tocava com emoção, envolvido completamente pela musica.
“Olha as tatoos
desse cara. Super estilo!” – Ela olhou para amiga, depois para o palco de novo.
A amiga se referia ao vocalista. Fazia do tipo fortão, tatuado e cabelos lisos
e desgrenhado até os ombros. Completamente roqueiro. “Pra quem adora um sertanejo
e um peão, você até que tá me surpreendendo”. – disse ela erguendo uma
sobrancelha.
Curtiram o show, cada musica melhor que a outra. Eles
realmente mandavam muito bem. Elas conversaram com algumas pessoas do pub,
beberam mais alguns drinks, porém a morena não deixava de lançar olhadelas
furtivas para o baixista. E ele, super empolgado, balançava o pescoço como uma
mola. Bem provavelmente amanheceria travado no outro dia devido aos movimentos
bruscos.
Do palco, ele não conseguia enxergar nada que
estivesse mais que um metro de distancia. Sem óculos tudo que conseguia ver era
um borrão de pessoas. Na realidade não se preocupou muito em enxergar. Ver o
rosto das pessoas e os olhares de avaliação do publico só lhe servia para
deixar-lhe mais nervoso enquanto tocava. Quase duas horas depois se sentia
cansado e suado de tanto se movimentar. A alça do baixo já lhe incomodava o
ombro devido o atrito com a pele.
Na ultima musica sentou-se no chão do palco em com
as pernas nos degraus apoiou o instrumento na coxa. Tocou um solo com todo
sentimento, deixando que o som chegasse até seus ouvidos penetrando até a alma.
Musica realmente era sua praia. Descobrira isso quando começara a tocar aos 15
anos.
Após a ultima nota levantou-se, tirou a alça do
pescoço e de costas para o publico vestiu a camisa. A morena perto do palco,
que passara a noite toda lhe observando, reparou nas tatuagens em suas costas;
logo abaixo do pescoço bem no meio centro haviam três pequenos símbolos dos
quais ela não teve tempo de identificar.
No bar, enquanto pegava outra bebida, a morena viu
o baixista se aproximar. Ele se apoiou no balcão ao lado dela e pediu uma
cerveja. Agora vestido e de óculos aparentava um estilo mais
intelectual-casual, o que não o fez menos atrativo para ela, pelo contrario.
- Vocês mandaram bem, parabéns - Disse ela. Não esperava nada mais que um
“obrigado” por parte dele. Estava acostumada com caras de bandas que se achavam
estrelinhas, ainda mais logo após saírem do palco.
- Que bom
que gostou – respondeu ele. – Por enquanto a gente faz cover de bandas famosas,
mas temos algumas composições próprias. Aceita uma bebida?
- Ah, já pedi, obrigada – Nesse momento a garçonete
lhe entregou duas caipirinhas. Ele olhou para as bebidas e disse: “ Tá
inspirada”. Ela sorriu de volta e explicou “ Uma é da minha amiga, ela foi ao
banheiro e já deve estar volt...”.
Uma mão surgida do nada lhe tomou uma das bebidas.
Era a amiga loira, que voltara do banheiro já levemente alterada pelo álcool.
“– E ai, cara, cadê seu amigo fortão?” disse ela se inclinando um pouco para
frente.
- Hã..? – disse o garoto, meio surpreendido ou
assustado.
- Tá falando de mim gata? – surgiu o vocalista
fortão atrás dos três.
- Amiga, acho que você já está...
- Oieee! Você canta muuuiiito bem! – disse
colocando a mão no ombro dele.
- Obrigado! Afim de dançar? – Na caixa de som saia
uma musica agitada e som alto. Os dois se afastaram para longe do bar. O
baixista virou-se para a morena, ambos um pouco sem graça.
- Então... vou encontrar um lugar para me sentar –
ela virou-se e foi rumo à alguns sofás no fundo do Pub dos quais haviam varias
pessoas sentadas dormindo. Com certeza eram bêbados esperando por seus amigos
animados. No sofá haviam manchas secas de vômito, registro de noites
anteriores.
Ela percebeu que ele a seguia e quando sentou em
uma ponta vazia do sofá, tentou deixar espaço para que também coubesse ele.
Observou as paredes pintadas de preto pichadas com desenhos estranhos. Uma das
paredes estava coberta de assinaturas do teto ao chão. Ele apontou em uma
direção e disse “A minha está ali” – ela olhou na direção em que ele apontava. “Lugar
maneiro esse” – disse ela balançando a cabeça em tom afirmativo. “ Sinto falta
de lugares assim onde eu moro”.
- De onde você é?
- De uma cidade do interior de Minas Gerais. Lá é
terra do sertanejo então muito difícil desfrutar de um rock de qualidade.
- Que pena. Está aqui de passagem?
- Sim, eu e minha amiga viemos passar férias. As
vezes cansa sabe? Mesmos lugares, mesmas pessoas, então eu e ela preferimos
viajar. – Ele balançou a cabeça afirmativamente enquanto dava outra golada na
cerveja. – E você ? – continuou ela – É daqui mesmo?
- Sim... tenho um trampo durante a semana e estudo a
noite. Nos finais de semana a gente toca e ensaia. Por enquanto ainda não dá
pra viver só de musica.
Conversaram por muito tempo seguido até que o lugar
se esvaziasse e a musica na caixa de som ficasse mais baixa. Ela esquadrinhou o
lugar com os olhos sem sucesso em encontrar a amiga. Pegou o celular e enviou
mensagem de texto “Cadê você sua maluca? Tô preocupada”. A garçonete se
aproximou dos dois e perguntou se ainda iriam querer outra bebida. Ambos
negaram.
- Tenho que terminar desmontar o equipamento –
disse ele se levantando.
- Ah, tudo bem – disse ela meio aflita olhando para
os lados sem encontrar vestígios da amiga. Ele percebeu a aflição dela. “ Vem”
– disse estendendo-lhe a mão. “Vou desmontar o equipamento e te ajudo a
encontrar sua amiga.”
Próximo ao palco os outros dois integrantes da
banda já tinham empacotado tudo. O mais baixo disse exasperado: “- Onde você
tava cara? O maluco do Y saiu daqui com uma loira, disse que amanha ele volta
para pegar a parte dele”. Só então que percebeu a garota que também se
aproximou. “Oi” – disse ela um pouco tímida. Se sentiu um pouco frustrada, a
amiga havia lhe abandonado de novo, como já fizera varias vezes. A diferença
agora era que estava em uma cidade grande desconhecida. Pelo menos em sua
cidade sabia o rumo de casa.
Percebendo a desanimo da garota ele colocou a mão
em seu braço e falou para que ela não se preocupasse. Ele encontraria um taxi
de uma companhia segura para lava-la até o hotel. Tranquilizou-a também quanto
a amiga. Ela estava em boas mãos. Sentiu-se um pouco mais segura, apesar de que
não queria ir para o hotel. Queria passar mais tempo com ele.
Ele pegou o baixo colocou dentro da capa, pagaram a
conta e saíram do pub.
- Ah, que beleza! – A chuva caia grosseiramente.
Correram para debaixo de uma marquise para se protegerem dos pingos molhados.
- Saco! Além disso eu tô com fome e acho que a
cozinha do hotel não vai estar aberta a essa altura. – Ela reclamou passando a
mão no cabelo que já tinha se arrepiado todo com o vento e os pingos.
- Olha... se você quiser... eu hãã, moro a duas
quadras daqui. Posso fazer alguma coisa pra gente comer. Também estou com fome.
– sugeriu ele meio incerto do que estava fazendo.
Ela bufou. Não queria ir pro hotel. Queria que ele a abraçasse. Estava toda
molhada e irritada com a amiga. Não sabia bem se poderia confiar em uma pessoa
que acabara de conhecer. O tom de aventura da situação a instigou. Deu de
ombros como quem dizia tanto faz. Foda-se! Ela bem que queria. Não precisava de
desculpas que estava chovendo ou que estava com fome para acompanha-lo.
Pegaram na mão e saíram correndo na chuva.
Atravessaram dois quarteirões até virar uma esquina e parar em frente a uma
portinha. Com mãos hábeis ele abriu a porta e subiram uma escada até um
corredor de luminosidade fraca e com outras três portas. Entraram na segunda
porta. Era uma quitinete minúscula, em cima de cômodos de comercio, mas era
ajeitada.
Nas paredes havia quadros de bandas famosas. A
cozinha era conjugada com a sala. A mesa era um balcão que delimitada os dois
cômodos. Além da porta de entrada havia mais outra porta, o quarto. Ela deu uma
olhada de soslaio naquela direção, contudo não conseguiu visualizar nada lá
dentro. A sala tinha apenas uma TV e uma poltrona. Na verdade não cabia muito
mais do que isso.
Uma Yorkshire veio correndo e começou a pular nos
joelhos dele. “ – Oi querida, está com fome?” A cachorrinha, com um laço na
cabeça soltou duas latidas.
- Você tem uma yorkshire? – disse ela espantada. Ela
um cachorro bastante feminino para um homem que morava sozinho.
- É da minha namorada. Ela mudou para outro apartamento
que não aceita cachorros e enquanto isso essa coisinha fica aqui comigo. - Disse ele passando a mão pela cabeça da
cachorrinha.
Ela sentiu um balde de água fria em sua cabeça ao
ouvir a palavra “namorada”. Por essa não esperava. Estava ensopada, com fome,
na casa de um cara que ela estava afim e que tinha namorada. Ele tirou a camisa
deixando a mostra os músculos definido dos braços e barriga. Ela lhe lançou um
olhar de cobiça proíbida.
Ele percebera a forma com que ela o olhava. Tinha
os olhos pretos, cílíos grandes e olhar penetrante. Sentia vontade de
envolve-la com os braços, e beijar-lhe intensamente à boca, descer a mão por
suas costas... sentir o contato da pele dela em sua barriga, bem junto ao seu
corpo. Não tentou disfarçar seus pensamentos, sabia que não conseguiria.
Perguntou-se se ela havia notado o que ele pensara.
- Você sempre faz isso?
- O que? – indagou ele se dirigindo a cozinha.
Abriu a geladeira como quem analisa as possibilidades ali dentro. A calça preta
molhada lhe caia de forma sexy no quadril.
- Ficar pelado assim, perto das pessoas.
Ele soltou uma risada. Pegou o queijo na geladeira,
o pão no armário depositou em cima do balcão onde ela estava debruçada. – Não
estou pelado, só estou sem camisa. E além do mais estava todo molhado.
- Se continuar tocando pelado desse jeito vai
acabar ficando famoso. – disse ela sorrindo.
Ele deu a volta pelo balcão seguindo em direção ao
quarto. Lançou-lhe um olhar penetrante acompanhado de um sorriso lerdo. Ele voltou
com uma toalha e uma troca de roupa na mão. Atirou as peças na cara dela. –
Toma, troque de roupa, você está toda molhada. Desse jeito vai ficar resfriada.
Ela analisou a peça que ele havia lhe jogado. Era
um pijama feminino. – Eu não vou vestir
uma roupa da sua namorada. – disse ela tentando ressaltar a ultima palavra.
- Por que não? Vocês tem praticamente as mesmas
medidas e além do mais ela não se importaria.
- Acha mesmo isso? Você traz uma garota
desconhecida para seu apartamento, e ainda empresta uma roupa dela? Não
obrigada.
Ela colocou a roupa em cima da poltrona. Tirou o
coturno encharcado. Sabia que no outro dia ele estaria insuportavelmente fedido
de chulé. Passou a toalha pelos cabelos, secando-os.
Ela checou o celular, nenhuma mensagem da amiga. “Vou torcer seu pescoço quando te encontrar”.
Segundos depois veio a resposta. “Já tô
sabendo que você está com o baixista. Larga
de ser velha e divirta-se. Eu tô bem, não preocupa.” Ela revirou os olhos.
Apertou em responder: “Ele tem namorada”.
A resposta chegou em segundos novamente. “Duvido
que ele consiga resistir a você. E não me enche!! Byeee”. Ela gostava da
amiga desajuizada. No fundo ela queria ser um pouco assim, despreocupada com
tudo. Tentou relaxar, aproveitar o momento, como estava tentando nos últimos
dias.
- Você é daquelas viciadas em tecnologia?
- Não muito – Ela guardou o aparelho. A bateria
estava acabando mesmo, melhor economizar, caso precisasse.
Comeram os sanduiches, sentados um de frente para o
outro. Estavam famintos. Se sentiram bem mais confortável um com o outro agora.
- Vem aqui, quero te mostrar uma coisa. – disse
ele.
O quarto também não era muito grande, assim como o
resto do apartamento. Cama de solteiro, guarda roupa pequeno com uma das portas
abertas e abaixo da janela um pequeno armário com discos de vinil e CDS de
bandas atuais.
- Acho que você é a única pessoa em plena era
digital que tem discos de Vinil e CDS. – Disse ela impressionada. Sentou-se no
chão e começou mexer primeiro nos Vinis. Beatles, Elvis Presley, Maycon
Jackson.
- Tenho também algumas fitas cassetes com gravações
caseiras de bandas da década de 90.
Ele lembrou da época de colegial em que gravava
fitas para ouvir no disk-man. Dos tempo de banda da escola, de tocar violão na
hora do intervalo.
- Fantástico. – Exclamou ela. Começou a fuçar no
CDs. Green Day, U2, The killers, dentre outras bandas
indies. Encontrou todos os CDs já gravados do Arctic Monkeys. Deu um salto. –
Caraaaaca, você tem a coleção completa!!
- Você gosta deles? Ultimamente virou meio modinha.
- Adooro! Fui no show desses caras ano passado. Foi
foda!
Ele levantou uma sobrancelha. Lembrou se de uma
parte de uma musica deles “It's just, I'm constantly on the cusp of trying to
kiss you”
– Além de linda você tem um puta bom gosto! Se eu
não tivesse namorada já teria te beijado.
Ela ficou surpresa com o comentário dele. Não soube
o que falar. Então apenas sorriu.
SÃO PAULO, ZONA OESTE, 2021
Meia hora depois, já em
casa, a primeira coisa que fez ao abrir a porta do apartamento foi ligar o
notebook. Digitou no Google o nome de uma banda. Não sabia que resultados
exatamente apareceriam, afinal já se fazia tantos anos. Não foi fácil de achar.
Sequer lembrava o sobrenome dele, o máximo o nome da banda e seu primeiro nome.
Em 6 anos muitas coisas poderiam ter mudado; ele sair da banda, ter se casado e
agora com filhos. Ou ter mudado de cidade, quem sabe ter seguido outra área
profissional. Assim como ela, as coisas haviam mudado muito. Não era mais a
mesma pessoa.
Clicou em um link. Era um
site de programação noturna paulistana. Ficou surpresa e empolgada com o que
encontrou. Descobrira que ele faria um show naquela noite há 12 km de distancia
de onde ela estava. Extremamente perto, considerando a imensidão daquela
cidade. Havia a possibilidade de não ser ele, ser alguém com o nome parecido. Levantou-se
em um salto, resolveu se arriscar. Essa noite ia para balada.
....
Ele afinava o equipamento,
como todas as vezes antes dos shows. Buscava o tom certo dependendo das musicas
que faziam parte do repertorio. Mesmo depois de tanto tempo tocando ainda
sentia certo nervoso antes de tocar. Uma emoção em fazer o que realmente
gostava.
No meio do show teve a sensação de ver um rosto
conhecido na plateia. Tentou focar o olhar, mesmo assim não conseguia
distinguir bem o rosto das pessoas sem óculos, além de que tinha uma luz
direcionada para iluminar o palco que sempre o segava. Pensou ser coisa da sua
cabeça, impossível reencontrar uma pessoa, depois de tanto tempo, em um pub
pequeno no meio de São Paulo durante uma apresentação simples em plena semana.
É só que ele tinha sonhado com ela na semana anterior. Meneou a cabeça,
espantando pensamentos.
Ela chegou ao pub no meio da apresentação. Durante
a semana as apresentações aconteciam mais cedo. No caminho veio pensando que
poderia ser uma loucura. Como seria encontrar uma pessoa depois de tanto tempo?
Talvez ele não fosse mais a mesma pessoa, poderia não sentir-se tão atraída –
ou vice versa - afinal as pessoas mudam com as circunstancias da vida. Ou
poderia ter sido apenas naquela noite, o tom proibido de sentir-se atraídos, ou
coisa da idade mesmo.
Pegou uma
cerveja no bar. O pub estava
relativamente vazio. Ele tocava com a mesma desenvoltura, apesar de agora
apresentar um tom de maturidade em seus gestos. Em algum momento teve a sensação
de que ele a olhara, no entanto não apresentou nenhuma expressão de
reconhecimento. Resolveu se aproximar do palco.
Focando o olhar nela, agora ele tinha certeza.
Começaram a tocar uma música mais lenta, o que o permitia desviar mais a
atenção do instrumento. No momento que antecedeu a próxima musica, aproximou-se
do vocalista de cochichou algo no ouvido dele. O amigo apenas balançou a cabeça
em tom afirmativo.
- Galera, muito bom estar com vocês novamente.
Antes de terminar o show quero ceder o espaço para meu amigo que resolveu tocar
uma musica de ultima hora. Agora é com você brother.
Ele foi para o centro do palco. Ajeitou o baixo no
pescoço e o microfone próximo à boca. “Essa música é uma dedicação especial
para uma pessoa que não vejo há muitos anos, mas que mesmo assim continuou me
inspirando”. Começou a tocar. “Do you
ever get that fear that you can't shift the type that sticks around like
something in your teeth”. Poucas vezes em sua vida arriscara a cantar. “I've dreamt about you nearly every night
this week.”
Ela o
observava parada no mesmo lugar. Quando desceu do palco foi direto falar com
ela. “Você não mudou nada”. Por um momento ambos não sabiam muito bem o que
fazer. “Do I wanna know? If this feeling
flows both ways”. A música ainda pairara pela mente deles, fazendo com que
cada frase encontrasse sentido na realidade.
“E você está
com cabelo branco” – ela disse e passou a mão na cabeça dele, ainda incerta se
teria tal intimidade. Ele a abraçou forte. O cheiro do cabelo dela fez com que
ele relembrasse mais vivamente o passado.
“Sad to see you go. Sort of hoping that you'd stay”. Naquela noite ficaram
conversando até o amanhecer e depois cada um seguiu seu caminho, voltaram para
sua rotina. “We both kow... that the
nights were mainly made for saying things that you can't say tomorrow day”.
Ficaram por um tempo ainda assim. Apesar de ambos
varias vezes terem pensado em reencontros casuais, sequer poderiam imaginar a
intensidade do momento. Ela pensou que afinal tivera a coragem de procura-lo e
não deixar para o destino - que talvez sequer se encarregasse se proporcionar
um reencontro. “So have you got the guts?”
Ela também não tinha a mínima noção do que havia acontecido com ele aquele
tempo. Poderia muito bem ainda estar com aquela mesma namorada, ou talvez
outra. Afinal a vida não para por causa de uma pessoa que você conheceu em uma
noite qualquer. “Been wondering if your
heart's still open”.
Por sua vez ele
pensara varias vezes, durante esses anos, se ele havia mexido com ela da mesma
forma que ela o desestabilizou. Quando terminou seu namoro, dois anos depois,
ainda tinha ela na cabeça. Abraçou-a, pensando que nunca mais soltaria, mas não
sabia o que ela sentia. “I don't know if
you feel the same as I do but we could be together, If you wanted to”.
Não sabiam de fato o que cada um pensava em relação
ao outro, mas qualquer pessoa que visse os dois poderia perceber que estavam
completamente afim um do outro. Não sabiam se era momentâneo, apenas uma
aventura ou algo para durar por muito tempo. Quando se sente algo, não dá para
saber o prazo de validade.
“Muito bom rever você” – disse ele por fim,
soltando-a do abraço.
- Você melhorou bastante no baixo, andou tendo
aulas? – brincou ela. – Não sabia que você também cantava. – Ele
riu com o comentário dela.
- Ah, eu arrisco às vezes.
Algum tempo depois saíram do pub e começaram a
caminhar pela rua.
- Mas e
então, como andam as coisas? – perguntou ela – Você parece ótimo.
- É que minha esposa cuida bem de mim, você sabe
como é. – retrucou ele, tentando esconder um sorriso.
Ela não ficou surpreendida, apesar de desapontada.
Era previsível. Ele não conseguiu conter a gargalhada.
– Estou brincando, não me casei. Você fez uma cara
muito engraçada. – Ela bufou e revirou os olhos. Deu-lhe um soco no ombro.
Pararam de caminhar e encararam um ao outro.
- Lembra de uma das coisas que te disse naquela
época... que se eu terminasse o namoro, a primeira coisa que eu faria era ir
pra Minas Gerais – Ela fez que sim com a cabeça. – De fato eu tentei, tentei te
procurar e encontrar você, de todos os meios possíveis, mais você foi embora
sem sequer me deixar uma pista. – Ela continuou olhando para ele, olhos
profundamente negros e cílios grandes.
- Eu passei
um tempo fora. Acho que seria um pouco difícil você ter me encontrado. –
Voltaram a caminhar. Ela continuou depois de um momento. – Mais hoje ouvi “Do you Wanna Know” no carro e me lembrei de você. Resolvi procurar
– ela virou a cabeça de lado e lançou-lhe um sorriso. – Não imaginava que te
encontraria.
- Sabe o que eu estou com vontade de fazer? –
perguntou ele. Pararam de caminhar novamente. - O que
eu deveria ter feito há 6 anos atrás”.
“It's just I'm
constantly on the cusp of trying to kiss you”
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