Tarde da noite, onde até a grande São Paulo já dormia, ainda
havia uma luz acessa. Dentre todos apartamentos de um alto prédio apenas um
foco de luz competia com as estrelas. Ela não conseguia dormir, por mais que
tentasse. Não sabia se o culpado da insônia seria o calor desnecessário ou seus
pensamentos que pinicavam sua mente. Ligou o ar condicionado, apesar de odiar a
sensação que o frio lhe causava na pele, ativou o spotify na playlist de
musicas brasileiras e passou a mão em um livro – que não era incomum, sempre
ter por perto.
No auto falante saia um som ameno e baixo, com musicas
calmas que sempre lhe causava leveza e nostalgia. Por mais que tentasse não
conseguia ler. Sua mente a arrebatava para longe dali, a quilômetros de
distancias, sua cidade no interior.
Há alguns meses ela mudara pra São Paulo devido a uma boa
oportunidade de emprego. Apesar de viver muitas mudanças – tudo que ela mais
gostava, pois odiava a rotina – não conseguia deixar de pensar em sua terra. Mas
isso tinha um motivo especial. Um certo rapaz de barba mal feita que conheceu
um pouco antes de mudar.
Se questionava o porquê, logo quando teve a oportunidade de
se mudar, e após passar longo período solteira desacreditando que pudesse
encontrar alguém com mesmos gostos inusitados, foi encontrar alguém que parecia
corresponder suas expectativas.
Tudo não passava de especulação, é claro. Ninguém tem
garantia de sucesso nessa vida – nem amoroso ou profissional. Mas nunca lhe
passara pela cabeça desperdiçar uma chance que sempre se dedicou por causa de
uma pessoa. Era se anular demais. Mas... deixar alguém pra trás, também não
seria se anular? Matar algo que poderia crescer e criar raiz?
Suspirou e meneou a cabeça tentando espantar pensamentos
penosos, no entanto, tudo que conseguiu foi reviver a ultima vez que o viu.
Contou pra ele. Não fazia a mínima ideia de como ele reagiria. Não disse nada,
apenas apoiou a testa na dela e ficaram assim por alguns minutos, no silencio.
Nenhuma palavra teria a capacidade de expressar nada naquele momento. Por fim
ele se afastou um pouco, segurou em seus ombros, não perguntou se ela já havia
decidido ir ou se ficaria. Apenas a beijou na testa. E com esse gesto ela
entendeu que ele a apoiava em qualquer que fosse sua decisão. Sentiu vontade de
chorar, devido tamanha maturidade com a forma de lidar nessa situação. Nem
sempre deixar as pessoas ir de nossas vidas era fácil.
Alguns meses depois ainda se perguntava se tomara a melhor
decisão. O medo de errar nas escolhas sempre a acompanhara e torcia para que,
se um dia percebesse um erro, ter a humildade para voltar atrás e ainda tempo
suficiente para corrigi-lo. Ou até mesmo, caso não fosse possível começar de
novo, tivesse força suficiente para seguir em frente. A musica aos poucos foi
sumindo de sua consciência “ Tão
jovens... não temos tempo a perder...”. Até que, por fim, o cansaço lhe
venceu e o sono a dominou.
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