10 agosto 2014

Era só mais um final de semana como todos os outros. Ela estava cansada da mesmice daquela cidade pequena e achava que ali não poderia te oferecer nada demais. Era comum, as pessoas que não iam para a faculdade continuavam ali, trabalhando em alguma loja de roupa ou em algum pub a noite. Logo, logo encontravam um namorado, engravidaria e se casava. Ficava gorda. E esse era o ciclo da vida, como foi com sua mae, mae de suas amigas e suas próprias amigas.  Ela não queria nenhum, nem outro. Não queria ficar ali engordando, muito menos ir pra universidade. Achava que a faculdade limitaria seu talento. Acreditava que arte se fazia com o coração, e não precisava de escola para aprender como faze-la.
Era mais um sábado daqueles, chatos. Ficaria em casa atoa, mas sua amiga Lidy ligou chamando pra ir no pub mais badalado da cidade. O único aliás. Não aguentava mais as mesmas pessoas, os mesmos caras babacas e os mesmos assuntos de merda.
Por fim, resolveu ir e fazer a vontade da amiga. Entre ficar em casa e ir, daria na mesma.
Quando chegou,  encostou no balcão e pediu uma vodka e um suco. Aprendera a beber para fugir um pouco da chatice daquela cidade e também porque ser a única sobrea de uma turma era a coisa mais esquisita do mundo.  Mas hoje em dia ela estava pouco se fudendo para as pessoas e bebia por que gostava da sensação de ver tudo turvo. Pelo menos sentia vontade de rir, e soltava gargalhadas mais sinceras quando bêbada. Ficava mais áspera também, isso é verdade, com a língua mais afiada que o habitual.
As mesmas musicas tocavam na caixa de som, ainda estava meio vazio e avistou na porta um carinha entrando: calça jeans, camiseta branca e blusa de couro preto por cima. Uma figura. Esquadrinhou-o com os olhos enquanto cumprimentava a turma de amigos com a toques estranhos de mãos. Era gato, mas parecia bem metido.
- Aí está você! – gritou Lidy quando encostou no balcão com certa agressividade.
- Que susto garota! – retrucou mais ríspida do que tinha planejado.
- Pensei que não visse... – disse a amiga - Viu quem está na cidade?
- Quem...  – perguntou sem interesse.
- Lembra do Duca? Aquele que, quando estávamos no primeiro ano, explodiu um vaso sanitário no banheiro dos professores ?
Ela erguei a sobrancelha como quem dissesse “ e dai?”, mas a amiga interpretou como se ela não lembrasse do tal garoto.
- Ele quase foi expulso, mas como tinha as notas super altas e já estava acabando o terceiro ano, a diretora resolveu manter ele os últimos três meses no colégio só pra subir a media de alunos que entraram pra universidade... HEY, DANI, aqui!!
Nesse momento, um amigo de infância das duas se aproximou. Era daquele estilo popular que conversa com todos, super bem relacionado.
- Mas não deu muito certo a tática dela... soube que ele foi morar fora e não para a faculdade – completou a amiga, no mesmo instante que Dani se juntava a elas.
- E aí, minhas deusas! – chegou perto das duas cumprimentando-as com beijo na bochecha. – Que tal pra hoje?  - Isa fez cara de tédio e bocejou forçadamente pra demonstrar sua descrença com a noite.
- Ah qual é garota! Relaxa e divirta-se!  - Os três riram do gesto forçado dela, que apresentou um pouco cômico demais.
- Hoje tem concurso de quem canta melhor... isso aqui vai ficar hilário depois que estiver todo mundo chapado e achar que canta bem - Dani, fez sinal para o barman e pediu sua bebia.
A noite continuou e em menos de 30 minutos o lugar já estava tão lotado que mal era possível transitar sem esbarrar em alguém.
Depois da terceira vodka a musica começou a ficar mais legal e quando se deu conta, Lidy tinha sumido e Dani estava conversando com três garotas ( não sabia qual delas estava mais afim dele). Isa observava os quatro jovens, e o amigo, apesar de ser o único homem na roda, dominava toda a conversa fazendo as três garotas caírem na risada. Ele não fazia o estilo bonito, nem sarado, mas tinha charme e isso fazia com que ele ganhasse qualquer garota. Uma das três, a única loira, ria mais alto que todas da roda; “pra chamar a atenção” pensou Isa.
- Suco? – disse uma voz masculina e ela se assustou.
Era o cara da jaqueta de couro... Duca.
- Não obrigada – respondeu ela.
- Não estou te oferecendo suco.  Perguntei se isso no seu copo era só suco. – A voz era firme e marcava presença mesmo com o som alto.
- Qual o problema se for só suco? – respondeu no tom ríspido de costume.
Ele fez uma cara de “não estou nem aí se for apenas suco” e completou  - Problema  nenhum... Isso é só um motivo para te oferecer uma tequila.
- Não obrigada – Respondeu. Olhou para o lado a procura de Dani para que ele pudesse salva-la daquele play boy, mas desistiu assim que o amigo entrou em seu campo de visão. Dani estava com um braço em torno do pescoço da loira e com a outra mão mexia no cabelo da garota mais baixa. “Aquilo ali ainda vai render...” sussurrou ela.
- O que você disse? – perguntou Duca incliando o corpo mais para perto, com quem quer ouvir o que ela dizia.
- Nada.
- Voce é um pouco estranha – falou com tom provocante.
- Ah, você acha? – respondeu ela de forma mais irônica que pode.
- Você deveria considerar isso um elogio.
- Serio? Um elogio por você ter me reparado de alguma forma?
- Se acha tão apagada que ninguém te repararia e por isso você é assim toda estranha, para as pessoas reparar em você?
- Vá se fuder! – disse ela. Nervosa tentou ir pra outro canto, mas com o bar cheio não conseguiu se mover muito.
As pessoas começaram a se amontoar perto do palco para assistirem umas as outras cantando no (...). A cada musica que tocava ficava mais engraçadas, pessoas bêbadas tentando acertar a letra e não sair do ritmo. Começou uma musica bem agitada, boa para sacudir o corpo e ela ouviu aquela voz firme dizer bem perto do seu ouvido “ quer dançar?”. Ela virou a cabeça 90º para traz, não conseguia ainda ver Duca, mas podia sentir o corpo dele bem colado no dela.
- Pensei que tinha te mandado se fuder – gritou ela, acima da musica.
- Essa não é minha praia lindinha – retrucou ele, enquanto passava na frente dela rumo ao palco. – É a minha vez.
A musica agitada que tocava acabou e a ruiva  de cabelo tingido que cantava desceu do palquinho e fazendo questão de se apoiar em Duca. “Trouxa”, pensou ela, e por um momento não sabia se se referia  a ele ou a ruiva falsa.
A próxima musica começou a tocar, o rock tomando conta de todo o ambiente e ela não sabia se sentia ódio dele ou se ficava feliz por ser uma de suas bandas preferidas. Sentiu seu rosto queimar quando ele cantou o refrão da musica, olhando bem em seus olhos. Tentou desviar o olhar mas não conseguia. “ Stop making the eyes at me, I'll stop making the eyes at you”. Mesmo que ela não quisesse assumir para si mesmo, aquele cara mexia com ela. Simplesmente não era o tipo de cara que chamava sua atenção, preferia mais os inteligentes do que os  gatos que faziam sucesso geral. “ Ele só pode tá me zuando”, pensou ela quando ele dizia “ I bet you look good on the dance floor”.  O sotaque britânico dele a deixava levemente animada, mas tratou de esconder qualquer vestígio de emoção.
Quando a musica terminou ele desceu do palco, veio em direção a ela, mas passou direto e se juntou aos seus amigos. Ela sabia, era tática, depois daquela musica... “ Mandou bem cara!”, escutou um amigo dele dizer, mas não conseguiu captar mais nada da conversa da roda. Ela continuou onde estava, a essa altura não se via sinal de Dani e Lidy. Pegou o celular e escreveu uma mensagem de texto “ Belo par de amigos eu tenho”. Apertou o botão ‘enviar’, mas não tinha certeza se ali teria sinal para entregar a mensagem.  
Inclinou a cabeça levemente para o lado, mordeu o canudo e se perdeu em devaneios. Não tinha nada de mais infringir uma, talvez duas, de suas próprias regras aquela noite, tinha? Ele bem que era gato e..
- Gosta de Arctic Monkeys?
- Porra garoto! Não sabe começar uma conversa de um jeito normal não?
- Não gosto de ser previsível – disse ele com um sorriso apenas em um lado do rosto. – Mas e aí, curtiu ou não?
- Ô! Você foi quase um Alex Turner. – Disse ela irônica.
- Gosto de sua aspereza. Isso faz você destoar das outras garotas.
Ela deu crise de riso. A essa altura, um pouco bêbada, achou de extrema graça a palavra “destoar”. Que cara usa a palavra “destoar” em plena madrugada, tentando ganhar uma garota?
- Do que você tá rindo? – o fato de ela rir descontroladamente o irritou, principalmente por não saber o motivo da graça.
- Nada – disse ela ainda sem conseguir se controlar.
Ele virou as costas e já ia saindo. Ela segurou o braço dele forte. Ele parou com o toque, mandão até demais para ser de uma garota. Virou-se. Encarou ela com os olhos meio semicerrados.
- Mandou bem no sotaque, cara! – ela deu-lhe um soquinho no ombro.
Ele deu meio sorriso, pela primeira vez ela tinha baixado a guarda.
- Aprimorei para o Britânico quando morei um tempo na Inglaterra.
- Saquei – disse ela dando de ombros.
Ele percebeu que essa era a deixa, mais um minuto ou dois passaria do ponto. Pensou em dizer “ hey, a musica aqui tá um pouco alta demais, quer ir para outro lugar?” Mas o tom falso-casual deixava a frase piegas demais. Decidiu inovar. Aproximou do ouvido dela e apenas disse:
 “ - Now it's three in the morning and I'm trying to change your mind…”
Ela sorriu de volta e correspondeu ao toque quando ele pegou em sua mão e saiu abrindo caminho entre as pessoas até a porta.

- “ Wonder where am I… Sort of feels like I'm running out of time I haven't found all I was hoping to find” – completou a frase com “yet” sem saber se ele tinha ouvido ou não… 

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